Log de Um Milímetro Fora do Peso

o aro de prata ainda estava morno quando eu percebi — não foi bem perceber, foi mais um tropeço no ar — que ele flutuou um milímetro antes de cair na minha mão. não era para acontecer. eu estava cansado demais para ter certeza, talvez a noite anterior tenha sido curta, talvez eu só tenha deixado escapar, não sei. ainda assim, fiquei ali segurando o aro como quem segura um erro que ninguém viu.

o balcão tinha marcas antigas de lima, manchas minhas de anos. sempre achei que eu conhecia cada relevo. naquele dia, porém, o aro parecia mais leve, ou eu mais fraco. a cliente chegou logo depois, uma moça que sempre encomendava peças mínimas demais para os dedos dela. quando entreguei o anel, algo na forma como ele pousou na palma dela — devagar, quase preguiçoso — me deu um frio. ela sorriu como se eu tivesse dom, e eu não corrigi. também não soube agradecer direito. acho que só balancei a cabeça.

não falei disso pra ninguém. continuei testando quando podia: uma corrente que demorava mais a tocar o feltro, um pingente que parecia suspirar antes de ceder ao peso. coisas pequenas, que eu podia fingir que não vi. eu dizia a mim mesmo que era só jeito de olhar, fadiga, essas merdas. ainda assim, comecei a usar. um toque aqui, outro ali. nada demais. os clientes achavam que eu era cada vez mais habilidoso. eu deixava acharem. porra, eu deixava sim.

algumas noites eu ficava na bancada muito além do razoável. o metal espalhado, as pinças tortas, um pedaço de ouro que deslizou um centímetro sozinho — juro que deslizou — e ainda assim eu dizia que não era isso. eu devia estar imaginando. a oficina tinha um cheiro de poeira úmida que irritava o nariz. eu coçava o rosto, tremia um pouco. talvez tenha sido aí que comecei a trapacear de fato, sem admitir. diminuir o peso na hora certa, fingir firmeza na solda, essas pequenas trapaças que, somadas, davam a impressão de perfeição.

o problema é que a perfeição não é minha. nunca foi. um dia um senhor veio buscar um colar complicado, cheio de curvaturas finas. eu estava convencido de que o colar só parecia tão bom por causa… bom, daquilo. entregue, ele segurou a peça como se fosse nada. riu: “você está ficando cada vez melhor”. e eu senti uma pontada, um incômodo bruto, lá no fundo, como se eu tivesse deixado uma porta aberta atrás de mim. eu deveria ter dito algo, mas fiquei olhando a porta da rua se fechar.

nas manhãs seguintes, tive dificuldade para saber se o que fazia era trabalho meu ou só manipulação. algumas peças caíam pesadas demais, outras leves demais. não era constante. às vezes eu achava que tinha perdido a mão, outras que tinha ido longe demais. certa vez, o peso de um brinco oscilou no ar como se estivesse escolhendo seu próprio destino. eu puxei a mão para trás rápido, quase derrubei tudo. ainda escuto o tilintar estranho que fez, não combinava com metal nenhum.

e tem outra coisa: comecei a errar onde nunca errei. uma lima escapou, um fecho ficou torto, coisas que não têm nada a ver com gravidade. talvez fosse cansaço, talvez não. comecei a suspeitar que o que eu “melhorava” de um lado estava me desfazendo do outro. custo admitir isso — mesmo agora, escrevendo por dentro da cabeça — mas houve uma manhã em que tentei fazer uma peça sem usar nada além do meu ofício antigo, e tudo saiu… normal. só que normal me pareceu falho. ou eu falhei tentando lembrar o que era normal. difícil explicar.

num fim de tarde, com a luz entrando torta pelo vitrô, deixei cair um pequeno anel de prata. ele rodou no ar por um instante — longo demais, curto demais — antes de tocar a mesa. não sei se foi real. eu estava exausto, sem dormir direito. passei a mão nos olhos e vi o anel fazendo sombra onde não devia. pensei em fechar a loja por uns dias. não fechei.

um cliente novo chegou naquela semana, pedindo algo simples. nada que justificasse qualquer truque. mesmo assim, quando entreguei, ele olhou para mim como se tivesse descoberto alguma coisa escondida na peça. senti náusea. ele não sabia de nada, claro, e mesmo assim aquele olhar me perseguiu a noite inteira. eu não conseguia saber se tinha trapaceado ou se tinha trabalhado bem. parece idiota, mas ali perdi alguma referência — como se minha mão e a coisa que ela faz não estivessem mais ligadas pelo mesmo fio.

há noites em que acordo achando que o travesseiro está mais leve. outras, que meu corpo pesa demais. não sei até onde isso vai. também não sei se ainda estou enganando alguém ou só a mim. segurei hoje uma pulseira comum e por um segundo ela pareceu tremer, ou talvez tenha sido minha mão. deixei cair. o barulho foi seco, sem graça.

agora a oficina está quieta. estou aqui sentado, sentindo um leve puxão no ar — ou não, talvez seja só fadiga. tento lembrar como era antes de tudo isso, quando o peso obedecia. não lembro bem. acho que o problema começou muito antes do primeiro truque. ou começou depois. difícil ordenar as coisas.

o metal na bancada brilha um pouco, como se esperasse que eu o tocasse. não vou tocar agora. talvez nada aconteça. talvez aconteça algo mínimo, quase invisível. não sei mais medir. então só fico aqui, respirando devagar, esperando que o ar resolva o que ele quiser fazer comigo.
e com o que ainda resta do meu trabalho.

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